Uma estrofe para cada

Foi um jogo. A querida e talentosíssima poetisa Nara Figueiredo escrevia uma estrofe, eu escrevia outra, e assim sucessivamente até se formar a poesia. Obviamente que minhas estrofes não chegam aos pés das dela, pois não sou poeta – mas não revelarei de qual é qual. O resultado foi esse:

Aquele poeta que se esconde
que leva vida enganosa
de rosto rubro
Esse poeta acaba de renascer.

De suas mãos nodosas
muitos séculos acumulados
além de pele e ossos
pena e nanquim.

Com olhos fundos e coração grande,
usa sua melhor caligrafia,
seu melhor sombreado a punho,
e aquela paz de cheiro desejável.

Derrama todo o seu nó de letras
sobre o amarelado papel de textura áspera
Tão ásperas estas palavras!
e tão suaves como o papel!

Mastigando sangue e saudade
nos bocejos da noite longa
consegue no seu mar de motivos fúteis
razões sólidas de justificar-se.

De que aquela vida enganosa
pôde ser levada como mera ilusão
mas os séculos cobram-lhe a verdade
naquelas palavras despejadas logo ali.

Do amor ser uma praga falsa
nos olhos marejados a verdade viva
abraça forte seu pessoal entendimento
suas dores, o peso nos ombros e o tempo.

Sob barba desgrenhada branca como neve
letras e letras forjadas por negro nanquim
verdades manchadas por lágrimas gris
vida que cessa, mentira que já não existe.
Renascimento.

A rara poética da beleza

Deixo a fábrica da poesia para os poetas.

Me engalfinhei numa miríade de tentativas; elas, com efeito, sempre se mostraram desastradas: poesia não brota de minhas mãos. Minhas mãos não respondem ao impulso poético, a comandos para a empresa de versos e estrofes que inundam almas, que chegam a marear olhos, que definem o antes e o depois – rimas e não-rimas a conceber, tão cabalmente, o belo.

Poesia não brota de minhas mãos, por mais que tente e tente novamente. Deixo, então, a fábrica da poesia para os poetas. Que me deem o direito de ser consumidor – contemplador – de seus produtos! Que me deem o direito de ter minha alma inundada e meus olhos mareados! Nisso tudo, posso crer, esbanjo competência.

Poesia não brota de minhas mãos, mas invade meus olhos e inunda minha alma. Metaforicamente ou literalmente, Deus (ou o Acaso, o Caos – depende a forma como se faz o entendimento do mundo e seus meandros, suas voltas, seus caminhos) é um poeta raro que, raras vezes, produz poesia rara. A bela poética divina concebendo e proporcionando a beleza, a beleza absoluta, inconteste, inquestionável, inspiradora.

Quando a poesia é demonstrada, quando a beleza é posta ante você, ela deve ser lida. A raridade não deve ser desperdiçada, deve ser contemplada. À sua frente desfilam palavras em belíssimos traços, versos e estrofes constituintes num desenho raríssimo, estonteante, que tira o fôlego e redefine muitas e muitas coisas. O antes e o depois, tudo vira comparativa. Metaforicamente ou literalmente, poesia é lida e vislumbrada em belos olhos – convenhamos, os mais belos olhos contemplados em sua vida -, olhos que inspiram, a métrica de frases perfeitas num desenho perfeito, num desenho raro, completamente único, e que inunda seus próprios olhos, sua própria alma – te proporciona elevação.

A beleza não deve ser perdida. A raridade deve ser agarrada, a poesia deve ser lida. Deus, ou o Caos, é um poeta raro que escreve poesia rara. Raras são as vezes em que nos deparamos com tais poesias. Metaforicamente as lemos, literalmente as contemplamos e nos embasbacamos, metaforicamente ou literalmente percebemos que, se poesia não brota de nossas mãos, se poesia não pode brotar de nossas mãos, deixemos a fábrica delas para os poetas; gratos somos pelo fato de a vida (por meio de Deus ou do Acaso), fabricá-las e colocá-las em nossa frente, em nosso caminho, disponibilizar a nós suas palavras, seus versos e estrofes, suas linhas e traços, para que possamos ter nossas almas inundadas em inspiração e nossos olhos mareados pela rara poética da beleza.

Seu nome é

Ato involuntário, seu braço se esticou convicto para alcançar o ipod que estava sobre o empoeirado criado mudo ao lado da cama, enquanto a primeira luz matinal invadia o escuro recinto através da fresta da janela. Fez isso imediatamente após realizar outro ato quase tão involuntário quanto esse: abrir os olhos ao acordar. Ora, precisava conhecer os índices do dia, saber de elevações e quedas, ler o que o mercado tem a dizer. Qual seria o investimento da vez? Números e percentagens desfilam diante dele, gráficos ascendentes e descendentes dançam na frente dos seus olhos. Observa tudo isso logo abaixo de um quadro, posto na parede à cabeceira da cama, disforme pela penumbra mas revelado pela luz emitida pelo visor do ipod. O quadro ostenta o retrato de um de seus ídolos, homem claro, terno de grife alinhado, olhos azuis rodeados por pequenas pregas, sorrindo um sorriso de dentes brancos e perfeitos, e cabelos grisalhos moldados pelo laquê em profusão. Um símbolo de status e mestre do marketing e da publicidade, além de estrela de programa de perguntas e respostas, desses que fazem bastante sucesso atualmente, e eventual apresentador de reality show com premiações trabalhistas milionárias em um de seus incontáveis empreendimentos. Mas não, aquele não é Roberto Justus, antes que você pense. Aquele é o ídolo maior do rapaz que visualiza índices. Ele o olha, ora, enquanto larga o ipod sobre a cama, se levantando num pulo para vestir qualquer coisa e cair para a rua. Num apressado pé ante pé, engole rapidamente algo parcamente mastigado. Deus lhe proteja de um engasgo fatal, mas, como dizem por aí, tempo é dinheiro, e ele não perderá tempo, tão pouco dinheiro.

Deixou, então, de experimentar os prazeres de um bom café da manhã. A primeira refeição do dia, de sabor ampliado e temperado pelas horas de jejum. Pães de tipos e texturas infinitas, queijos de consistência e sabores incontáveis e geleias de gostos intensos. Sensações olfativas, visuais e gustativas indescritíveis. Sobrepujara tudo isso, mas deixara o deleite do desjejum de lado por uma boa causa. Tempo é dinheiro, e, como sabemos, ele jamais perderia tempo, muito menos dinheiro.

Me perdoe, esqueci de comentar… enquanto sorvia aquele pouco mastigado pedaço de pão francês com algum resquício de margarina, mergulhando para mais um dia de sua vida feita de dias tão parecidos, ele imaginou o futuro em que, após anos de planejamento, investimentos e muito trabalho, com dinheiro no bolso e tempo para tal, poderia se sentar e relaxar saboreando um café da manhã como o descrito no parágrafo anterior.

Seu primeiro nome é Empreendimento.

O dia parecido com todos os outros dias lhe rendeu algum dinheiro, em relativamente pouco tempo. Era um dinheiro suficiente para realizar algum sonho, talvez uma viagem. Sim, o senhor Empreendimento poderia se embrenhar na viagem dos seus sonhos! Mas, lembre-se, ele jamais perderia tempo (a viagem de seus sonhos tomaria algum tempo, obviamente), além do que, vamos pensar, o valor investido naquilo seria exorbitantemente mal empregado. Quase um crime. Poderia investir, por exemplo, em títulos de renda fixa apoiados em créditos imobiliários ou, talvez, comprar CDBs visando os juros que o dinheiro aplicado geraria, multiplicando seus dividendos muitas e muitas vezes. Aprendeu tudo isso (inclusive o emprego sensato de seus valores) com as mensagens, palestras e livros de outro de seus ídolos pessoais, sujeito sorridente, grisalho mas com ar jovial, de sotaque com erres vibrados evidentes, executivo de grandes marcas, colunista de importantes publicações voltadas para gestão empresarial, táticas empreendedoras e temas do tipo, além de apresentador de quadro em que ensina lucidez econômica num famoso programa de variedades, exibido aos domingos à noite, em uma emissora de televisão líder de audiência. Por favor, não estamos falando de Max Gehringer. De forma alguma, estamos falando de outro de seus ídolos. Ele levanta os olhos para o céu e o agradece por lhe presentear com sua inteligência financeira, por não sair por aí fazendo besteiras, jogando dinheiro na lata do lixo.

Então, por ter voado para o banco após se decidir por esse ou aquele investimento, ficou quilômetros e quilômetros mais distante daquela praia paradisíaca, de areia branca e água azul turquesa, que havia agradado seus olhos na fotografia que vira naquela revista, certa vez. A viagem dos seus sonhos. Por ter se aprumado para o banco naquela tarde, se afastou quilômetros e mais quilômetros do frescor da brisa suave sentida no rosto, além do sol e do aroma salgado muito agradável que só o mar imaculado e transparente poderia proporcionar. Ficou a uma distância quase infinita dos nativos do lugar, gente simples e um tanto desapegada, gente que procura, tão somente, viver, com sua cultura absolutamente única, além de sons, gestos e gostos ímpares. Mas, é óbvio, aquela viagem (principalmente o fato de lidar com aquele povo ignorante, atrasado, notoriamente vagabundo pela sua pouca afeição ao trabalho) seria uma futilidade louca, levando em consideração a realidade atual do mercado, tão propícia a aplicações financeiras.

Peço perdão novamente por minha incompetência ao relatar os fatos. Por um lapso de memória não disse que ele, ao adentrar o banco e colocar seu dinheiro sobre a mesa do gerente para os procedimentos necessários em vista dos investimentos rentáveis pelos quais optou, pôde se ver no futuro, aposentado do árduo trabalho, com os frutos de anos de labuta na forma de dindim no bolso e tempo de sobra, deitado em uma esteira com as pernas apontadas para o céu enquanto sente a brisa salgada no rosto e contempla o mar, ah!, aquele belo mar azul turquesa.

Seu segundo nome é Sensatez.

O telefone tocou. Após o “alô”, identificou a voz da garota com quem namorava, ou achava que sustentava algo definido como namoro. O senhor Empreendimento Sensatez esbravejou em pensamentos. Não queria ouvir palavrório romântico, não desejava saber da vida fútil dela, não tinha tempo para tal. A menina perguntou quando iriam se encontrar, ele deu de ombros sem dizer uma palavra. Ignorou o fato de que ela não podia vê-lo. E, sem mais delongas, pôs a bradar sobre tempo útil, sobre poupança, sobre projeto de término de curso. Falou muito de trabalho formal e informal, disse coisas como freelance, CLT e pessoa jurídica, e declamou sobre cursos de oratória, para saber dialogar com empregados e empregadores, programação neurolinguística, para o desenvolvimento profissional através da persuasão, e técnicas de empreendedorismo para se dar bem nos negócios. Ela tentou dizer, com voz doce, que sentia saudades dele, e ele a interrompeu dizendo que, infelizmente, não tinha tempo para ela. Ela chorou após um rápido soluço consternado e desligou o telefone, e ele sorriu aliviado por não precisar mais se degastar com compromissos irrelevantes. Segurou seu celular por alguns instantes antes de guardar no bolso, experimentando a ótima sensação de alívio. Nesse celular, em seu visor, havia a imagem de outro dos mestres de sua vida, famoso palestrante de temas como carreira e sucesso, vencedor em tudo o que se propôs realizar e, por isso, feliz (como é solidário por natureza, ensina suas técnicas para alcançar a vitória e a fórmula da felicidade para qualquer pessoa que quiser se motivar a chegar lá), sujeito bem quisto no meio corporativo, disputadíssimo. Antes que você pense nele, logo adiantamos que esse homem não é Roberto Shinyashiki. Não, é outro palestrante famoso, a quem o rapaz presta louvores por lhe proporcionar motivação para sempre buscar sua felicidade e vitória, mesmo com tantos entraves que se colocam em seu caminho e não cansam de tentar atrapalhar.

Ao se livrar do fardo da agora ex-namorada que pesava sobre seus interesses de vitória pessoal e financeira, deixou de viver um verdadeiro amor. Não só com a tal garota do telefone, com outras moças também. Negou a si mesmo uma relação de companheirismo verdadeira, pelo tempo que durasse. Dispensou beijos e carícias, não experimentou sorrisos e olhares. Queimou todos os possíveis bilhetes melosos e poéticos que poderia escrever ou receber, daquele tipo que só amantes são capazes de compartilhar. Não experienciou nem mesmo o êxtase de um orgasmo e a satisfação de observar a companheira exultante, ou a sensação sublime de acordar numa manhã qualquer ao lado da mulher que se ama, aqueles momentos verdadeiramente felizes em que tudo parece lindo e perfeito. Não, nada disso. Nem mesmo chorou por alguém, sofrendo tremendamente por um término, por um rompimento. Jamais vivenciou a dor absoluta que é perder a pessoa de sua vida, a pessoa que se quer para si. Mas, convenhamos, tudo isso é plenamente justificável, já que ele não tinha tempo para esse tipo de baboseira. Ocuparia seu tempo com algo que rendesse um lucro real, e tempo é dinheiro, jamais se esqueça disso.

Falando em esquecimento, me desculpe, mas esqueci de dizer que ele, ao sentir alívio por dispensar a garota do telefone que tanto atrapalhava seu plano de carreira e, assim, conseguir todo o tempo do mundo para os seus planejamentos, investimentos, cursos de empreendedorismo e oratória e PNL, além do trabalho, muito trabalho, pensou no futuro quando, depois de conseguir seu dinheiro e seus bens desimpedido da Silva, pudesse relaxar se dedicando a uma esposa e a filhos. Amaria sua mulher e levaria os pimpolhos para brincarem no parque aos ensolarados domingos de manhã.

Seu terceiro nome é Trabalho.

Para terminar esse breve relato, eis que o vemos novamente deitado numa cama, com a luz matinal escapando por uma fresta da janela para invadir o ambiente. Mas, dessa vez, ele não estica o braço para alcançar um ipod, tão pouco há aquele quadro sobre a cabeceira da cama. O futuro chegou. Apesar do sucesso em seu planejamento, esforços, investimentos e trabalho para juntar algum capital, o senhor Empreendimento Sensatez Trabalho não ergueu o braço por não mais precisar observar o que o mercado tem a lhe confessar e lucrar com essas confissões. Ele não o fez por não poder. Se esticasse o braço, poderia arrancar as agulhas que perfuravam sua pele e alimentavam suas veias com soro e analgésicos. O quarto em questão não é o quarto de sua ampla propriedade, que ele conseguiu com o fruto de seu árduo trabalho. Não, aquele quarto onde a luz teima em invadir é um quarto de hospital, decorado com calmantes cores frias, essencialmente apático, com bipes baixinhos e constantes em linhas que apresentavam picos num intervalo de tempo quase exato, o único gráfico ascendente e descendente no local. A cama é o seu leito de morte. Ele está definhando, restam-lhe poucos momentos de vida.

O futuro chegou, mas nada daquilo que tanto planejara para si após os anos de batente, investimentos precisos, a chegada do sucesso e da tranquilidade. E, do jeito que as coisas caminhavam, não chegariam jamais. Se desesperou e se remexeu, o bipe acelerou e uma enfermeira logo despontou junto à porta, para conferir se tudo estava bem. Como tudo parecia em ordem, partiu. Mas não, nem tudo estava bem. Aquele homem amedrontado, agora idoso, preso naquela cama, barganha com Deus. Barganha por uma segunda chance, por uma segunda vida, agora para ser vivida. Mas Deus, que em nada lembra o homem que não é Justus, tão pouco aquele que não é Gehringer, muito menos o que não é Shinyashiki, respondeu que havia lhe dado uma vida, e ele, em vez de viver, a vendeu por rendimentos na poupança, investimentos imobiliários, além de commodities e fórmulas prontas para a felicidade. Não, não haveria segunda chance, aquilo não era um conto de natal de Dickens, aquilo era a vida real, se é que houve vida alguma vez ali. E desapareceu.

Pensou então que sua especialização em oratória, além de sua graduação em programação neurolinguística e, por que não, sua riqueza, poderiam convencer a Morte de que havia uma grande injustiça em toda aquela situação. Tentou, tentou e tentou. Mas a Morte não arredou o pé da certeza de que não havia qualquer injustiça em tudo aquilo; existia, isso sim, escolhas. De nada adiantou toda a sua bela dicção corporativa, toda a sua persuasão e todo o seu dinheiro para dissuadir a Morte da opinião de que, pelas escolhas que ele fizera para si, tudo estava muito justo ali.

Então células começaram a explodir dentro do seu corpo, provocando espasmos violentos e muito dolorosos. Era todo convulsão e dor extrema, era todo sofrimento intenso e calafrios horríveis. Logo não passaria de comida para vermes, final inevitável de todos nós… lembrou disso de um filme besta que vira certa vez, mas que agora passava a ter algum sentido. O bipe disparou numa velocidade incrível, a muitos e muitos quilômetros por hora. Arqueava suas costas formando um grande ângulo para trás, repuxava seus dedos encarquilhados, franzia sua testa calva, vazava suor e mau cheiro, babava uma bica de saliva eterna. A dor era terrivelmente lancinante e insuportável. Mas nenhuma dor física era mais severa que a dor provocada pela descoberta de que não passava de um cadáver desde o momento em que passou a existir.

Seu quarto e último nome é Desperdício. Seu nome verdadeiro é esse. Os outros três nomes o batizaram dessa forma.

Antes de seu cérebro derreter, questionou a validade de todo o planejamento, toda a parcimônia, todo o trabalho, todos os cursos, todos os investimentos, todo empreendedorismo, toda sensatez. Jamais se deliciaria com uma espetacular geleia de damasco num prazeroso café da manhã. Nunca sentiria seus pés na areia branca de uma praia com água azul turquesa, na companhia de pessoas interessantíssimas. Nem experimentaria um extasiante orgasmo com a mulher de sua vida, amor de tantos amores. A enfermeira adentrou correndo o quarto em que ele estava, mas nada mais poderia fazer. O bipe nem era mais bipe, era apenas um som ininterrupto em uma linha contínua.

Amor

O que é o amor senão o bem-estar proporcionado pela completude de motivos no agora e significados para o amanhã? Senão a resposta para as dúvidas do ser, do que verdadeiramente somos?

Diziam os antigos que os deuses haviam criado seres andróginos, com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas. Temerosos com a ameaça que aquelas criaturas poderiam oferecer, fizeram com que se dividissem e errassem por aí, numa eterna procura pela parte suprimida.

Cá estamos nós, então. O que é o amor senão o desejo incontrolável de completar a própria alma? O amor é a anulação do desejo dos deuses de separação, a fórmula para transformar duas pessoas em uma só.

Amor é plenitude.

Peso e leveza

O retângulo branco fita seus olhos, desafiando suas intenções. Por sua vez, seus olhos desafiados também não cessam em fitá-lo. Aquela folha de papel está lá, à sua frente, imóvel, desafiando ao compartilhamento. As convenções ditam que aquele é um símbolo de leveza. Realmente, basta uma fraca brisa para tirá-la de sua prostração.

Em tempos imemoriais, após a derrota dos titãs, Atlas foi condenado por Zeus a carregar o peso da abóboda celeste sobre seus ombros, por ousar ser uma das forças do caos contra os deuses, senhores da ordem. Desde então Atlas retesa seus músculos poderosos e, eternamente trêmulo, sustenta um peso imensurável. Você e seus ombros suportam o mesmo peso, peso de mundos e mundos, enquanto fita aquele leve retângulo branco a sua frente, que não cessa, em momento algum, de desafiar suas intenções.

O interno, o íntimo, o próprio espírito que se apoia sobre seu pescoço, a gravidade, coluna vertebral curvada sobre aquela folha. Compartilhamento. O caos, que imputa lágrimas e sorrisos, que faz a incerteza a eterna certeza, que desafia os deuses pelo não ser e por isso é condenado a sentir e nos fazer sentir pesos incalculáveis.

Então uma de suas mãos, solidária a Atlas, aos seus ombros e aos seus olhos, alcança aquele pequeno objeto. Talvez uma caneta, ou uma pena, um lápis, não importa, tal objeto torna-se o prolongamento do braço, que o liga diretamente a ombros que suportam peso, ombros estes que se ligam ao interior que provoca peso. É aí dentro que reside o caos, o sentir, a essência. Onde mora os acontecimentos e seus frutos, onde vive seu espírito, onde, enfim, está a abóboda celeste a ser carregada.

Escreva.

Corrente elétrica contínua, interior/exterior, a leveza do papel que finalmente recebe suas intenções, que finalmente recebe você. Íntimo, olhos, ombros, braços, mão, papel – âmago despejado. A folha recebe e passa a dividir o peso de mundos e mundos que antes só você suportava. Meio peso é mais fácil de sustentar que um peso inteiro. O outrora leve e branco retângulo embota-se de letras e letras, transbordando o eu. Compartilha. A abóboda celeste passa para o papel, que a passa para o mundo, que escora metade do seu peso e o auxilia com seu fardo.

Sinta alívio. O trêmulo Atlas tem o seu merecido descanso.

Minha terceira década

(Escrito em 5 de maio de 2010)

Nesse exato momento vivo o ocaso de minha terceira década de vida. Amanhã, numa hora dessas, a quarta década se iniciará: terei nascido há exatos trinta anos.

Trinta anos. Velozes trinta anos, alcançados tão rapidamente que mal pude piscar. Ou pude, e muito. Repletos trinta anos. Se pensar em tudo o que aconteceu nessas três décadas, percebo que meus anos arrastaram-se em verdadeiro passo de tartaruga, talvez no arrastar de uma lesma – das mais lentas, diga-se de passagem.

Mas a memória não alcança como desejo os vinte anos anteriores aos meus últimos dez anos. Ou talvez não tenha um sincero interesse neles. Minha reflexão se dirige à década que está finda, à década que deixou inúmeras marcas, tão indeléveis marcas, e contribuiu como nunca para formar o que sou nesse exato momento, enquanto redijo essas palavras: meus vinte anos, ocorridos – talvez por um desígnio do destino, oficialmente por um nascimento em pleno 80 do século passado -, concomitante aos anos dois mil do presente século.

Como eu era, o que pensava, o que desejava quando a segunda década findava e eu embarcava, finalmente, nos vinte? Era outra pessoa, fato. Karl Marx me atraia mais que qualquer outro filósofo, por exemplo (hoje em dia repudio quase a totalidade do que ele me disse), e não tinha lido dez porcento de todos os livros que li até agora. Talvez nem cinco por cento deles. Ainda não tinha ouvido Henry David Thoreau e seu clamor por desobediência civil, tão pouco Hakim Bey e seu pedido por terrorismo poético. Nem mesmo os romances do albanês Ismail Kadaré, do checo Milán Kundera, muitos dos russos e muitas das poesias de Pessoa e seus heterônimos. Ou, ainda, Karen Armstrong e Joseph Campbell, com suas reflexões sobre a religião e a fé que tanto me arrebataram de meus lugares-comuns. O mesmo posso afirmar sobre meus amigos. Até aquele momento, haviam alguns. A grande maioria tomou seu próprio rumo, mal posso saber por onde andam agora. Alguns resistiram, e cá estão, até hoje, ao meu lado – companheiros antigos, leais, verdadeiros. Esses estarão por aqui nas décadas vindouras, com certeza,

Por falar em pessoas, a última década foi a década das pessoas. Tantas surgiram e me disseram algo. Outras tantas apareceram e não disseram absolutamente nada. Ou não: creio que todas disseram pelo menos alguma coisa, por mais supérflua que tenha sido. A palavra foi derramada, e, ao ser derramada, não pôde voltar atrás. Além das palavras derramadas, olhares, gestos, apertos de mãos, abraços, beijos, experiências… como diz um querido amigo meu (da década anterior, um dos sobreviventes): “não quero dinheiro ou fama, quero pessoas – elas valem mais”. Se é assim (e com certeza é) os vinte me fizeram um sujeito rico.

As pessoas que não puderam dizer muito extinguiram-se de minha história, nem mesmo viraram fósseis para ser exibidos em algum museu. As que falaram algo importante fazem parte dos meus dias. Porém, se me pegar refletindo mais profundamente, perceberei que algumas falaram – falaram não, gritaram – algo realmente importante, mas deixaram o palco de minha vida num certo momento. Ah, os amores! Então posso perceber que, além de ter sido a década das pessoas, a década que está acabando foi também a década dos sentimentos. Não mais aquele sentimento adolescente vazio de significados, mas um sentimento puramente sentido, pontuado por construções filosóficas do “por quê?”. Choro, tristeza, melancolia, depressão. Há mais: raiva, frustração, ódio… além disso, obviamente, sorriso, gargalhada, alegria, felicidade, cores, paixão, amor. Tudo isso plenamente vivenciado, plenamente questionado e plenamente sentido. A grande construção dos vinte anos. Somos o que nossas experiências são. Definitivamente não desejo dinheiro ou fama, desejo pessoas. Mais ainda, desejo vida, e, tal qual o que a gente é (pense comigo), o que faz a nossa vida são as nossas experiências. Felicidade e tristeza, os dois lados da moeda que se complementam para contar a nossa história. Numa resposta própria à questão filosófica base, o sentido da vida é um dia morrer tendo muitas e muitas histórias para contar. Me sinto um sujeito ainda mais rico.

Meu presente de aniversário para mim mesmo: o desejo de que a quarta década, a década dos trinta, que logo irá nascer, seja tão ou mais repleta que a década que está partindo. E que a reflexão e as memórias sejam bastante longas e intensas daqui dez anos.

Risco vizinho

Aquele garoto escalou o muro da casa de seu amigo para espionar o que poderia descobrir no território vizinho. A curiosidade o arrebatara fortemente, fazendo-o incidir naquele ato, enquanto seu amigo, filho do proprietário da casa, o observava logo abaixo, descrente de que ele pudesse obter qualquer informação com o mínimo valor. Quando finalmente logrou alcançar tal intento, podendo deslumbrar o quintal da casa ao lado, o rapaz não pode conter o medo, medo acometido por divisar algo que não desejava, medo que fez seus olhos embotarem-se de um horror perceptível e, francamente, medonho! Desceu então dali, num pulo só, apressado como uma dessas lagartixas que correm rápido por paredes verticais, e agarrou com força os ombros de seu colega atônito, completamente desnorteado pela palidez cadavérica que o terror proporcionara à face de seu outrora corado amigo. O rapaz tremia compulsivamente, as lágrimas brotavam aos borbotões de seus olhos estatelados, escorrendo como bicas, o queixo caído com um fio de baba descendo pelo canto dos lábios. Ia falar, mas não falou de imediato. Passados alguns segundos gritou, histérico: “há lá um ser alvo como as neves mortais dos gélidos pólos! Seus olhos perversos são indescritivelmente vermelhos como a cor do mais pervertido dos pecados da carne! Suas orelhas, meu Deus!, suas orelhas pendem compridas como adagas prontas a esfacelar corpos justos, e seu nariz bizarro se eleva e se abaixa num movimento ritmicamente frenético, hipnoticamente impuro! Queria eu ser cego para não ter que enfrentar tal visão imunda!”. Posto isso correu desesperado de encontro ao portão, se jogando para a rua e, dizem, esbarrando e derrubando alguns transeuntes incautos que perambulavam pela via naquele momento – uma senhora até ralou um de seus joelhos com a queda proporcionada pelo encontrão com o rapaz apavorado.

Seu amigo ficara ali, estático, olhando aflito para o vazio à sua frente. A respiração cessada por alguns instantes, um desconforto lastimável percorria como um raio a extensão de seu corpo. Seu cérebro precisou de tempo para processar tão nauseabunda informação. Com tal processo findo chegou um enjôo terrível em seu estômago, que o fez querer regurgitar, só não o fez porque não havia nada lá para ser colocado para fora – esperava pelo almoço. Mas seu estômago revirou-se, de qualquer forma. Veio também a constatação de que dormitara durante anos ao lado de criatura nefanda, convivera com ela ignorante dos riscos que corria, e que os seus corriam. Não reuniu coragem para divisar com os próprios olhos tal besta, pelo contrário, pôs-se na direção oposta, rumo ao interior da casa, com andar cambaleante.

Pouco tempo depois alcançou a cozinha da construção, onde sua mãe estava a fritar algumas partes de frangos para o almoço da família, imersa num odor forte de fritura e estalos de óleo quente. O menino entrou e parou. Ficou prostrado em estado de choque, com a respiração chiada e costas arqueadas, o olhar vidrado no nada manchado do teto. Quando a mãe notou a cena de seu filho terrificado, exigiu saber imediatamente o que ocorrera, completamente aflita. O rapaz tomou fôlego e desandou a bradar sem piedade: “há no vizinho uma criatura branca como é a cor espectral do espírito maligno e infame! Cada olho seu ostenta um vermelho detestável, tal qual o sangue jorrado de feridas abertas em corpos inocentes! Suas grandes orelhas são as mais pérfidas das coisas existentes e inexistentes e seu nariz possui o mais degenerado dos trejeitos! Feliz é o cego que não pode divisar horrendo ser!”.

Após ouvir tais palavras a mãe sentiu vertigens. Apoiou suas mãos na pia para não sofrer uma queda avantajada, desastrosa e perigosa. Empalideceu de imediato, o coração descompassou seu ritmo normal, e ela enxergou pequenas luzes voando para lá e para cá diante de si. Tornou-se um caco, um restolho de gente. Seu cérebro começou a dar lampejos de questionamentos a respeito do depoimento de seu querido filho: como pudera permanecer tão inocente a respeito da existência de torpe criatura às portas de seu lar tão regrado? Como nunca se deu conta do risco que ela e os seus corriam ante profanador assombro? Merecia um castigo muito bem aplicado, com certeza!

Então o pai chegou à cozinha após breve corrida, que o fez arquejar apoiando as mãos em seus joelhos para poder respirar melhor. O cansaço fora produzido por um estilo de vida civilizado e sedentário. Nunca pensava em se exercitar ou correr, só o fez por ouvir gritos oriundos daquele cômodo da casa, correndo em auxílio. Notou, enfim, sua mulher e seu filho num estado deplorável, questionando imediatamente o que se passara ali. Foi sua esposa que tomou a palavra: “o território vizinho é viveiro de uma blasfêmia animalesca clara como um leite promíscuo e envenenado! Os olhos da citada criatura são desmoralizadamente vermelhos como os esquálidos demônios que ardem no mármore dos infernos! Suas orelhas são uma perversão à parte: grandes como chifres, símbolos de tudo o que há de mal! E seu nariz vibra levantando-se e abaixando-se numa dança diabólica e corrompida! A cegueira de um cego passa a ser uma benção, pois o impede de visualizar tão malfeitora besta!”.

Agora era a vez do homem sentir vertigens, e as vertigens aumentaram e aumentaram, fazendo-o puxar uma cadeira para se sentar. Sentou-se e respirou pausadamente, até conseguir retomar o controle sobre os próprios movimentos, que então eram acometidos por violentos espasmos. Perguntou-se ardorosamente como permanecera tanto tempo alheio à vil existência de indecente forma ameaçadoramente próxima. Se amaldiçoou por sua completa incompetência de manter afastada tal praga de Babilônia. Levantou seus olhos e divisou sua mulher e seu filho que, inertes, esperavam ardorosamente alguma providência de sua parte.

O homem tomou fôlego e resolveu agir: tinha guardado em lugar secreto uma pistola calibre trinta e oito, que comprara há muitos anos mas que devia servir para seu propósito libertador. Pegou a arma em suas mãos e a carregou. Após isso ajoelhou-se, fez uma oração e o sinal da cruz. Estava prestes a servir a humanidade e livrá-la de um mal gigantesco, o que acalmou momentaneamente seu coração. Levantou-se, seguindo para o seu nobre desígnio. Se morreria naquele ato não podia saber, mas levaria a besta-fera junto, certamente!

Sua esposa e seu filho o acompanhavam reservando uma distância segura. Ostentavam aura de incerteza desesperadora. Sentiam medo, um grande medo, mas sabiam que aquele homem era o instrumento de tudo o que é bom contra tudo o que é mau, e esta certeza faziam-nos vibrar internamente de orgulho. Viram, então, seu marido e seu pai trepar no muro e, sem mirar, nem mesmo ver nada, levantar o braço e disparar na direção do quintal vizinho. Estampido. Silêncio. Os três ficaram se olhando, angustiados.

Passados alguns segundos, o homem ergueu-se medroso e vagarosamente para conferir se seu ato tinha resultado em glória ou desgraça. Já que não era cego, um olho após o outro pôde visualizar que conseguira atingir seu intento com sucesso, pois aquele ser de pêlos brancos, olhos vermelhos, orelhas compridas e narinas com movimento respiratório cessado jazia no chão com um buraco de bala no alto da cabeça, donde vazava sangue que já formava uma pequena poça por ali.

O animal estava morto. Pobre e inofensivo coelho.

Nietzsche e a garota do metrô

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.

Dia desses, entre a balaustrada simétrica e perpendicular e o sacolejar fraco mas constante do metrô, observei uma garota que se apoiava encostada próxima à última porta do vagão, no lado esquerdo. Seu olhar era vago, compenetrado no horizonte próximo uns dois metros na parede do túnel que passava em linhas rápidas e lampejos de alta velocidade. Como poderei saber de seus acontecimentos? Carregava um fichário ou algo assim com a capa rija preenchida com imagens bigodudas (algumas imberbes) de Friedrich Wilhelm Nietzsche, o pensador alemão que filosofou, em potência máxima, o pensamento que inicia esse texto.

Não poderei saber de seus acontecimentos, mas ela me transmitia, mesmo diante de toda a sua beleza (era muito bonita, porém isso não tem nada a ver com o que está sendo exposto aqui, e também porque, acredito, condição não interfere em beleza física, a não ser em alguns casos onde a percepção está envolvida), melancolia. Mas isso muito pelo meu preconceito pessoal em achar que todo nietzschiano carrega alguma tristeza em sua essência, pelo próprio exercício profundo de compreensão da vida (talvez a ignorância seja uma benção), amiúde o melhor professor de minha vida, Mauro, filósofo em Ciências Sociais, mestre em Nietzsche que declamava o alemão, caminhando com seus alunos (entre eles, eu) nos jardins arborizados da universidade, com um prazer e um sorriso visível no rosto – era extasiante ouvir a paixão derramada de suas cordas vocais sob todo aquele verde, ou mesmo sob o concreto.

Gostaria de ter a erudição do meu mestre, mas não a possuo e é certo que estou bem longe disso. Sou pouco conhecedor da filosofia de Nietzsche, mas a garota do metrô (voltando a ela e a ele, depois de algumas estações), cujos acontecimentos desconheço, me fez respirar um pouco de sua filosofia. Havia mais gente no vagão. Ninguém dançava, algo risível. Poderia ela estar dançando em seu olhar vago para a parede do túnel? Questionei em pensamentos e esperei por uma resposta afirmativa, mesmo sabendo que não teria algo do tipo.

Diante de uma análise rápida ela não era, definitivamente, o que eu esperava do super-homem nietzschiano. Nem mesmo depois de uma análise mais dedicada. E não estou falando de gente vestida com roupa colada azul brilhante e capa vermelha com logotipo amarelo, antes que haja, por favor, visualizações de tal figura dos gibis. Estou falando da pessoa que dança em plenitude, julgada louca por quem não ouve a música. E ninguém naquele vagão sacolejante de metrô, ninguém mesmo, dançava. Mas uma coisa era mais certa do que nunca: a vida é caos.

Desconhecia os acontecimentos de todos ali. Nem os meus próprios poderia afirmar com certeza absoluta sobre o que foram ou deixaram de ser. E como poderia saber, especialmente, o porvir? Resposta: caos. Além do bem e do mal, a imprevisibilidade. Além do bem e do mal, nossa ânsia de poder, nossa ânsia pelo desejo cumprido. Ânsia convertida em medo pela própria noção de caos e imprevisibilidade, da incerteza – caos não deixa de assustar! Mas caos é necessário e é o que torna a coisa toda tão digna de nota.

Nietzsche e a garota do metrô, então, me forçam a pensar em toda a moral que me rodeia naquela miríade de rostos apáticos, solícitos, conversando, em profundo tédio ou profunda agonia, ou seja lá o que for. E pensei. A noção da religião e regras estatais chegam por si só à minha cabeça, bem fortes e irredutíveis, e aos meus olhos a visão de outra garota, essa sentada enquanto lê um desses livros de auto ajuda, fórmula pronta para uma felicidade enlatada numa pretensa – e inevitavelmente falha – previsibilidade. Máscaras, diria o alemão. Máscaras para termos menos medo da música e não dançarmos conforme a mesma nos dita, e sim conforme nós desejamos, ou pensamos conseguir. Os nossos desejos, eles mesmos, nos forçam a usá-las, enquanto Nietzsche – e, talvez, a garota do metrô – nos força a enxergá-las, a ouvir a música. Quase esqueci de relatar: a moça do livro com algumas lições rápidas e práticas para o sucesso profissional e pessoal tinha um anel dourado no dedo anelar da mão esquerda.

Vida é caos. É imprevisibilidade. Diferente do budismo (uma das religiões da decadência para o alemão – a outra é o cristianismo: “A diferença fundamental entre as duas religiões da decadência: o budismo não promete, mas assegura. O cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada”, um de seus famosos aforismos onde podemos perceber claramente qual das duas ele mais execrava), Nietzsche não nos aconselha a abdicarmos de todos os nossos desejos para alcançarmos a transcendência, mas sim desejar ainda mais, sempre conscientes de que vida é essencialmente caos e que desejos não são, de forma alguma, a realidade. Plenamente e sinceramente conscientes dessa verdade, nos livramos das máscaras, ouvimos a música e dançamos loucamente, como num bacanal ao deus Dionísio. Dançamos acima do bem e do mal, pois é preciso ter o caos dentro de si para dar a luz uma estrela dançarina. Eis o super-homem nietzschiano. Nietzsche quer vida, Nietzsche quer viver, apesar de sofrer suas crises de dores estomacais terríveis, sua submissão à mãe e à irmã, uma certa depressão e algumas intempéries mentais que o transformavam no próprio deus Baco (talvez no próprio super-homem dançando julgado louco, quem pode saber?).

Então, no bipe avisando que as portas serão fechadas para o trem prosseguir, retorno de tais pensamentos e percebo que a garota do metrô não se encontra mais lá. Se foi. Fica a sensação de que Nietzsche disse, e continua dizendo, algo digno de nota. E a certeza de que não danço, nem dançam as pessoas naquela composição. Nem mesmo a garota que se foi. E essa mesma garota, a nietzschiana do metrô, além de seu admirado alemão, habitou minha cabeça durante todo aquele dia em que, mais uma vez, nada dancei.

Literatura e Eternidade

Eis então que o sujeito segura uma pena, pega algum nanquim e começa a organizar um montante de palavras numa folha de papel qualquer. Tornou-se imortal. Kafkas, Dostoiévskis e Clarisses podem inexistir fisicamente, até seus ossos podem ter desaparecido pela fome insaciável da natureza por transferência e reciclagem, mas as suas belas Letras estão lá, prontinhas para serem contempladas – e suas literaturas são eles mesmos. Quase quatro mil anos que Homero está vivo. Wirginia Wolf suicidou-se, mas seu Orlando e seus textos prosseguiram. A literatura protesta contra a morte, a literatura sobrepuja a morte.

Infeliz da pessoa que ignora a paixão por um bom livro. A literatura propicia vida ao escritor e proporciona vida a quem lê. Thoreau se questionou em algum lugar quantos foram os que tiveram suas existências mudadas e mudaram o mundo após ler um livro. Com certeza muitos. Gandhi compreendeu o que pretendia após ler o próprio Thoreau (A Desobediência Civil, especificamente) numa cela em Joanesburgo, na África do Sul. Partiu para livrar a sua Índia do jugo colonial inglês, e livrou. Na distopia Fahrenheit 451, Ray Bradbury concebe um mundo futurista em que os bombeiros são especialmente treinados para queimar livros, onde forem encontrados (451 graus fahrenheit é a temperatura necessária para que o papel entre em combustão), pois a literatura pode abalar e derrubar a ordem social ditatorial imposta. Não há livros, não há literatura, as pessoas são fúteis, subservientes, sem memória.

Infeliz da pessoa que não é arrebatada por uma boa leitura. Arrebatamentos dão dinâmica plena à vida, transforma-nos, impele-nos para frente, nos possibilita transcendência, elucida-nos de nossas dúvidas e anseios. Quem desconhece tais experiências vive uma vida manca.

Tomando emprestado palavras de Thoreau, grafadas em seu Walden, or life in the woods: “sempre que nos preocupamos em acumular riquezas para nós mesmos ou para nossa posteridade, em constituir uma família ou um Estado, ou mesmo adquirir fama, tornamo-nos mortais. Todavia, quando procuramos a substância da verdade tornamo-nos imortais e não precisamos temer mudanças ou acidentes. Se os mais antigos filósofos egípcios ou hindus levantaram a extremidade do véu que cobria a estátua da divindade, cujo manto trêmulo permanece soerguido, permitindo-me mirá-la em sua glória tão bem quanto eles, permitem-me dizer que eu fui tão ousado quanto eles, e eles conjuntamente comigo podem agora rememorar a visão”.

Por fim, escreveu o poeta muçulmano Mîr Camar Uddîn Mast, citado por Thoreau: “ansiando por percorrer as regiões do mundo espiritual, obtive nos livros esta orientação. Embriagar-me com uma única taça de vinho: consegui esta proeza ao beber o licor das doutrinas esotéricas”. Bebamos este vinho nós também, embriaguemo-nos e sejamos eternos.

Sorriso

Permanecerei ignorante sobre seus momentos, não mais saberei do seu dia. Não serão me ditas suas felicidades ou tristezas e declamadas suas paixões ou fúrias. Tão pouco tomarei parte de seus planos, ou farei parte deles. A mim não serão expostos teus sorrisos, minha’lma não mais se regozijará à vista deles, não mais se acalentará sob seu brilho. Expectativa quebrada, alimento retirado. Por que fui lembrar do sorriso?

Não me lembrei, apenas não me esqueci. Os esforços para a distância de pensamentos resultam em pensamentos ainda mais próximos. Buscar não pensar é pensar. Uma situação, um olhar; algo que nos deparamos e que remete ao sorriso. Um lugar, tudo o que nos rodeia. Buscar não sentir saudade é sentir saudade. Tática inútil que não resulta em frutos, não passo de um estrategista fútil. Posso me culpar? Não posso. Quanto mais nos julgamos treinados, mais somos surpreendidos pelo rompimento de nossa metade. Primeira experiência, mesmo que na milésima vez. Quem é capaz de se ausentar dessa sensação?

Não mais fazemos parte do que era nossa própria vida. Mas isso faz parte dela própria, não podemos negar – apesar do ineditismo de cada nova situação. Um dia, depois outro, mais um: vida dinâmica, dádiva! Um nascer do sol, um passo adiante, um passo mais longe. A distância não se faz pelo esforço, e sim pelo tempo, unicamente pelo tempo. Desprendimento temporal, jamais espacial, pois não há espaços quando algo vive em nossa própria substância. Vida, morte, vida. Tudo é corroído pelo tempo, lugar-comum infalível como o nascer do sol de cada dia, ou como o morrer dele a cada noite, inevitável mesmo com toda a incredulidade de nossa alma, que teima em não crer no que certamente chegará.

Enquanto o tempo não chega, continuo carregando teu sorriso.

Próxima Página »



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.