Ato involuntário, seu braço se esticou convicto para alcançar o ipod que estava sobre o empoeirado criado mudo ao lado da cama, enquanto a primeira luz matinal invadia o escuro recinto através da fresta da janela. Fez isso imediatamente após realizar outro ato quase tão involuntário quanto esse: abrir os olhos ao acordar. Ora, precisava conhecer os índices do dia, saber de elevações e quedas, ler o que o mercado tem a dizer. Qual seria o investimento da vez? Números e percentagens desfilam diante dele, gráficos ascendentes e descendentes dançam na frente dos seus olhos. Observa tudo isso logo abaixo de um quadro, posto na parede à cabeceira da cama, disforme pela penumbra mas revelado pela luz emitida pelo visor do ipod. O quadro ostenta o retrato de um de seus ídolos, homem claro, terno de grife alinhado, olhos azuis rodeados por pequenas pregas, sorrindo um sorriso de dentes brancos e perfeitos, e cabelos grisalhos moldados pelo laquê em profusão. Um símbolo de status e mestre do marketing e da publicidade, além de estrela de programa de perguntas e respostas, desses que fazem bastante sucesso atualmente, e eventual apresentador de reality show com premiações trabalhistas milionárias em um de seus incontáveis empreendimentos. Mas não, aquele não é Roberto Justus, antes que você pense. Aquele é o ídolo maior do rapaz que visualiza índices. Ele o olha, ora, enquanto larga o ipod sobre a cama, se levantando num pulo para vestir qualquer coisa e cair para a rua. Num apressado pé ante pé, engole rapidamente algo parcamente mastigado. Deus lhe proteja de um engasgo fatal, mas, como dizem por aí, tempo é dinheiro, e ele não perderá tempo, tão pouco dinheiro.
Deixou, então, de experimentar os prazeres de um bom café da manhã. A primeira refeição do dia, de sabor ampliado e temperado pelas horas de jejum. Pães de tipos e texturas infinitas, queijos de consistência e sabores incontáveis e geleias de gostos intensos. Sensações olfativas, visuais e gustativas indescritíveis. Sobrepujara tudo isso, mas deixara o deleite do desjejum de lado por uma boa causa. Tempo é dinheiro, e, como sabemos, ele jamais perderia tempo, muito menos dinheiro.
Me perdoe, esqueci de comentar… enquanto sorvia aquele pouco mastigado pedaço de pão francês com algum resquício de margarina, mergulhando para mais um dia de sua vida feita de dias tão parecidos, ele imaginou o futuro em que, após anos de planejamento, investimentos e muito trabalho, com dinheiro no bolso e tempo para tal, poderia se sentar e relaxar saboreando um café da manhã como o descrito no parágrafo anterior.
Seu primeiro nome é Empreendimento.
O dia parecido com todos os outros dias lhe rendeu algum dinheiro, em relativamente pouco tempo. Era um dinheiro suficiente para realizar algum sonho, talvez uma viagem. Sim, o senhor Empreendimento poderia se embrenhar na viagem dos seus sonhos! Mas, lembre-se, ele jamais perderia tempo (a viagem de seus sonhos tomaria algum tempo, obviamente), além do que, vamos pensar, o valor investido naquilo seria exorbitantemente mal empregado. Quase um crime. Poderia investir, por exemplo, em títulos de renda fixa apoiados em créditos imobiliários ou, talvez, comprar CDBs visando os juros que o dinheiro aplicado geraria, multiplicando seus dividendos muitas e muitas vezes. Aprendeu tudo isso (inclusive o emprego sensato de seus valores) com as mensagens, palestras e livros de outro de seus ídolos pessoais, sujeito sorridente, grisalho mas com ar jovial, de sotaque com erres vibrados evidentes, executivo de grandes marcas, colunista de importantes publicações voltadas para gestão empresarial, táticas empreendedoras e temas do tipo, além de apresentador de quadro em que ensina lucidez econômica num famoso programa de variedades, exibido aos domingos à noite, em uma emissora de televisão líder de audiência. Por favor, não estamos falando de Max Gehringer. De forma alguma, estamos falando de outro de seus ídolos. Ele levanta os olhos para o céu e o agradece por lhe presentear com sua inteligência financeira, por não sair por aí fazendo besteiras, jogando dinheiro na lata do lixo.
Então, por ter voado para o banco após se decidir por esse ou aquele investimento, ficou quilômetros e quilômetros mais distante daquela praia paradisíaca, de areia branca e água azul turquesa, que havia agradado seus olhos na fotografia que vira naquela revista, certa vez. A viagem dos seus sonhos. Por ter se aprumado para o banco naquela tarde, se afastou quilômetros e mais quilômetros do frescor da brisa suave sentida no rosto, além do sol e do aroma salgado muito agradável que só o mar imaculado e transparente poderia proporcionar. Ficou a uma distância quase infinita dos nativos do lugar, gente simples e um tanto desapegada, gente que procura, tão somente, viver, com sua cultura absolutamente única, além de sons, gestos e gostos ímpares. Mas, é óbvio, aquela viagem (principalmente o fato de lidar com aquele povo ignorante, atrasado, notoriamente vagabundo pela sua pouca afeição ao trabalho) seria uma futilidade louca, levando em consideração a realidade atual do mercado, tão propícia a aplicações financeiras.
Peço perdão novamente por minha incompetência ao relatar os fatos. Por um lapso de memória não disse que ele, ao adentrar o banco e colocar seu dinheiro sobre a mesa do gerente para os procedimentos necessários em vista dos investimentos rentáveis pelos quais optou, pôde se ver no futuro, aposentado do árduo trabalho, com os frutos de anos de labuta na forma de dindim no bolso e tempo de sobra, deitado em uma esteira com as pernas apontadas para o céu enquanto sente a brisa salgada no rosto e contempla o mar, ah!, aquele belo mar azul turquesa.
Seu segundo nome é Sensatez.
O telefone tocou. Após o “alô”, identificou a voz da garota com quem namorava, ou achava que sustentava algo definido como namoro. O senhor Empreendimento Sensatez esbravejou em pensamentos. Não queria ouvir palavrório romântico, não desejava saber da vida fútil dela, não tinha tempo para tal. A menina perguntou quando iriam se encontrar, ele deu de ombros sem dizer uma palavra. Ignorou o fato de que ela não podia vê-lo. E, sem mais delongas, pôs a bradar sobre tempo útil, sobre poupança, sobre projeto de término de curso. Falou muito de trabalho formal e informal, disse coisas como freelance, CLT e pessoa jurídica, e declamou sobre cursos de oratória, para saber dialogar com empregados e empregadores, programação neurolinguística, para o desenvolvimento profissional através da persuasão, e técnicas de empreendedorismo para se dar bem nos negócios. Ela tentou dizer, com voz doce, que sentia saudades dele, e ele a interrompeu dizendo que, infelizmente, não tinha tempo para ela. Ela chorou após um rápido soluço consternado e desligou o telefone, e ele sorriu aliviado por não precisar mais se degastar com compromissos irrelevantes. Segurou seu celular por alguns instantes antes de guardar no bolso, experimentando a ótima sensação de alívio. Nesse celular, em seu visor, havia a imagem de outro dos mestres de sua vida, famoso palestrante de temas como carreira e sucesso, vencedor em tudo o que se propôs realizar e, por isso, feliz (como é solidário por natureza, ensina suas técnicas para alcançar a vitória e a fórmula da felicidade para qualquer pessoa que quiser se motivar a chegar lá), sujeito bem quisto no meio corporativo, disputadíssimo. Antes que você pense nele, logo adiantamos que esse homem não é Roberto Shinyashiki. Não, é outro palestrante famoso, a quem o rapaz presta louvores por lhe proporcionar motivação para sempre buscar sua felicidade e vitória, mesmo com tantos entraves que se colocam em seu caminho e não cansam de tentar atrapalhar.
Ao se livrar do fardo da agora ex-namorada que pesava sobre seus interesses de vitória pessoal e financeira, deixou de viver um verdadeiro amor. Não só com a tal garota do telefone, com outras moças também. Negou a si mesmo uma relação de companheirismo verdadeira, pelo tempo que durasse. Dispensou beijos e carícias, não experimentou sorrisos e olhares. Queimou todos os possíveis bilhetes melosos e poéticos que poderia escrever ou receber, daquele tipo que só amantes são capazes de compartilhar. Não experienciou nem mesmo o êxtase de um orgasmo e a satisfação de observar a companheira exultante, ou a sensação sublime de acordar numa manhã qualquer ao lado da mulher que se ama, aqueles momentos verdadeiramente felizes em que tudo parece lindo e perfeito. Não, nada disso. Nem mesmo chorou por alguém, sofrendo tremendamente por um término, por um rompimento. Jamais vivenciou a dor absoluta que é perder a pessoa de sua vida, a pessoa que se quer para si. Mas, convenhamos, tudo isso é plenamente justificável, já que ele não tinha tempo para esse tipo de baboseira. Ocuparia seu tempo com algo que rendesse um lucro real, e tempo é dinheiro, jamais se esqueça disso.
Falando em esquecimento, me desculpe, mas esqueci de dizer que ele, ao sentir alívio por dispensar a garota do telefone que tanto atrapalhava seu plano de carreira e, assim, conseguir todo o tempo do mundo para os seus planejamentos, investimentos, cursos de empreendedorismo e oratória e PNL, além do trabalho, muito trabalho, pensou no futuro quando, depois de conseguir seu dinheiro e seus bens desimpedido da Silva, pudesse relaxar se dedicando a uma esposa e a filhos. Amaria sua mulher e levaria os pimpolhos para brincarem no parque aos ensolarados domingos de manhã.
Seu terceiro nome é Trabalho.
Para terminar esse breve relato, eis que o vemos novamente deitado numa cama, com a luz matinal escapando por uma fresta da janela para invadir o ambiente. Mas, dessa vez, ele não estica o braço para alcançar um ipod, tão pouco há aquele quadro sobre a cabeceira da cama. O futuro chegou. Apesar do sucesso em seu planejamento, esforços, investimentos e trabalho para juntar algum capital, o senhor Empreendimento Sensatez Trabalho não ergueu o braço por não mais precisar observar o que o mercado tem a lhe confessar e lucrar com essas confissões. Ele não o fez por não poder. Se esticasse o braço, poderia arrancar as agulhas que perfuravam sua pele e alimentavam suas veias com soro e analgésicos. O quarto em questão não é o quarto de sua ampla propriedade, que ele conseguiu com o fruto de seu árduo trabalho. Não, aquele quarto onde a luz teima em invadir é um quarto de hospital, decorado com calmantes cores frias, essencialmente apático, com bipes baixinhos e constantes em linhas que apresentavam picos num intervalo de tempo quase exato, o único gráfico ascendente e descendente no local. A cama é o seu leito de morte. Ele está definhando, restam-lhe poucos momentos de vida.
O futuro chegou, mas nada daquilo que tanto planejara para si após os anos de batente, investimentos precisos, a chegada do sucesso e da tranquilidade. E, do jeito que as coisas caminhavam, não chegariam jamais. Se desesperou e se remexeu, o bipe acelerou e uma enfermeira logo despontou junto à porta, para conferir se tudo estava bem. Como tudo parecia em ordem, partiu. Mas não, nem tudo estava bem. Aquele homem amedrontado, agora idoso, preso naquela cama, barganha com Deus. Barganha por uma segunda chance, por uma segunda vida, agora para ser vivida. Mas Deus, que em nada lembra o homem que não é Justus, tão pouco aquele que não é Gehringer, muito menos o que não é Shinyashiki, respondeu que havia lhe dado uma vida, e ele, em vez de viver, a vendeu por rendimentos na poupança, investimentos imobiliários, além de commodities e fórmulas prontas para a felicidade. Não, não haveria segunda chance, aquilo não era um conto de natal de Dickens, aquilo era a vida real, se é que houve vida alguma vez ali. E desapareceu.
Pensou então que sua especialização em oratória, além de sua graduação em programação neurolinguística e, por que não, sua riqueza, poderiam convencer a Morte de que havia uma grande injustiça em toda aquela situação. Tentou, tentou e tentou. Mas a Morte não arredou o pé da certeza de que não havia qualquer injustiça em tudo aquilo; existia, isso sim, escolhas. De nada adiantou toda a sua bela dicção corporativa, toda a sua persuasão e todo o seu dinheiro para dissuadir a Morte da opinião de que, pelas escolhas que ele fizera para si, tudo estava muito justo ali.
Então células começaram a explodir dentro do seu corpo, provocando espasmos violentos e muito dolorosos. Era todo convulsão e dor extrema, era todo sofrimento intenso e calafrios horríveis. Logo não passaria de comida para vermes, final inevitável de todos nós… lembrou disso de um filme besta que vira certa vez, mas que agora passava a ter algum sentido. O bipe disparou numa velocidade incrível, a muitos e muitos quilômetros por hora. Arqueava suas costas formando um grande ângulo para trás, repuxava seus dedos encarquilhados, franzia sua testa calva, vazava suor e mau cheiro, babava uma bica de saliva eterna. A dor era terrivelmente lancinante e insuportável. Mas nenhuma dor física era mais severa que a dor provocada pela descoberta de que não passava de um cadáver desde o momento em que passou a existir.
Seu quarto e último nome é Desperdício. Seu nome verdadeiro é esse. Os outros três nomes o batizaram dessa forma.
Antes de seu cérebro derreter, questionou a validade de todo o planejamento, toda a parcimônia, todo o trabalho, todos os cursos, todos os investimentos, todo empreendedorismo, toda sensatez. Jamais se deliciaria com uma espetacular geleia de damasco num prazeroso café da manhã. Nunca sentiria seus pés na areia branca de uma praia com água azul turquesa, na companhia de pessoas interessantíssimas. Nem experimentaria um extasiante orgasmo com a mulher de sua vida, amor de tantos amores. A enfermeira adentrou correndo o quarto em que ele estava, mas nada mais poderia fazer. O bipe nem era mais bipe, era apenas um som ininterrupto em uma linha contínua.